Muxoxos

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Outro dia, conversando com uma colega, comentava a minha dificuldade em aceitar que a Literatura Comparada é uma “disciplina nova”. Muita gente usa esta expressão. Muitos autores de livros dizem a mesma coisa. Sandra Nitrini afirma que “As origens da literalura comparada se confundem com as da própria literatura. Sua pré-história remonta às literaturas grega e ro­mana. Bastou existirem duas literaturas para se começar a compará-las, com o intuito de se apreciai seus respectivos méritos, embora se estivesse ainda longe de um projeto de comparatismo elaborado, que fugisse a uma mera inclinação empírica.” Viu só? Minha colega e eu conversávamos sobre a possibilidade de eu utilizar as ideias que expus, a partir do argumento respaldado pela citação, num texto que poderia compor, no mínimo, parte do relatório de pesquisa em que estamos (estávamos?) trabalhando. O tal projeto busca averiguar as condições de ensino de Matemática e Língua Portuguesa, em princípio. A ideia era mapear as matrizes curriculares de diversos cursos de licenciatura em Matemática e em Letras, bem como dos cursos de Pedagogia. A hipótese era a de que há algo “fora do lugar” no que diz respeito à determinação das disciplinas consideradas fundamentais – no jargão institucional elas são chamadas “obrigatórias” – para a formação do professor de Matemática e Língua Portuguesa – por extensão, de Literatura Brasileira.

Pois bem. Não acredito que Literatura Comparada seja mesmo uma disciplina. Mais: penso que não chega a ser uma disciplina. Parto do pressuposto de que a mesma dúvida pode ser colocada em relação à Psicanálise: disciplina ou ciência? A discussão é longa e espinhenta – espinhosa daria outro colorido ao discurso, não desejado aqui! O argumento que se sustenta na citação que faço de Sandra Nitrini parece encontrar respaldo em outra citação, desta feita, de Tânia Franco Carvalhal: “Se à época de seu surgimento, no século XIX, a Literatura Com­parada punha em relação duas literaturas diferentes ou perseguia a migra­ção de um elemento literário de um campo literário a outro, atravessando as fronteiras nacionais, hoje é possível dizer que sua atuação se ampliou largamente. Essa ampliação, que corresponde a mudança de paradigmas e que provocou diversas alterações metodológicas na disciplina, constitui a própria história do comparativismo literário. De sua fase inicial, em que era concebida como subsidiária da historiografia literária (“une branche de Histoire Littéraire”, como diria Carré) passa a exercer outras funções, mais adequadas a outros tempos. Surgida de uma necessidade de evitar o fechamento em si das nações recém constituídas e com uma intenção de cosmopolitismo literário, a Literatura Comparada deixa de exercer essa função “internacionalista” para converter-se em uma disciplina que põe em relação diferentes campos das Ciências Humanas.

O contexto é sem dúvida diverso. Do mesmo modo que se poderia explicar a inexistência de comparativismo literário como atividade sistemática no século XVIII por não haver ainda se forta­lecido integralmente o conceito de nação e o estabelecimento de seus limites definitivos, poder-se-ia compreender as alterações por que passa a Literatura Comparada em nosso século no exame da consti­tuição das diferentes disciplinas que compreendem o domínio das Ciências Humanas e da necessidade que surge em relacioná-las para a compreensão dos fenômenos.

Vista a questão de outro ângulo, o de sua definição, é ainda numa perspectiva histórica que se poderia dizer que se antes a espe­cificidade da Literatura Comparada era assegurada por uma restrição de campos e modos de atuação, hoje, essa mesma especificidade é lograda pela atribuição à disciplina da possibilidade de atuar entre várias áreas, apropriando-se de diversos métodos, próprios aos obje­tos que ela coloca em relação.”

A autora coloca lado a lado os conceitos de “disciplina” e de “atividade sistemática” e carrega no tempero com a última afirmação, quando menciona certa “possibilidade” antepenúltima linha do trecho citado. Pois bem. Isso aqui não é um artigo, uma resenha, uma tese ou um tratado sobre Literatura. Blagueando, uma vez mais, o André Moscoso: isso é só a minha opinião. Mas insisto. Não vejo a Literatura Comparada como uma “disciplina nova”. Sem demérito nenhum, enxergo-a como uma ampliação do campo dos estudos literários. O conceito de “campo”, aqui, vem, obviamente, à sombra da Sociologia de Pierre Bourdieu. E mais, tal como a Psicanálise, penso que a maior eficácia e cristalina efetividade das práticas comparatistas (ou comparativistas… você escolhe!) vem da possibilidade de se colocar constantemente em questão todas as certezas que estas “práticas” venham a desenhar no horizonte de expectativas do referido campo.

Sei que esta postagem destoa de quase todas as demais, ao longo de todo o tempo de existência do meu blogue. Sou capaz de concordar, mas não me importo. Escrevi estas linhas pensando, a todo instante, nos magoes e magotes de estudantes que pensam que me fizeram de bobo quando assinaram as listas de presença por outros colegas; ou naqueles que copiaram trechos inteiros da internete para, equivocadamente, me agradarem com as respostas para as perguntas que fiz em provas e exercícios; ou ainda, para além destes, mais magotes e magotes de outros que sequer gastaram um instante de seu tempo na graduação para ler que seja uma linha de um dos muitos textos sempre disponibilizados. Sinceramente?! Não sei o que essa gente pensou quando fez isso. Mais, não sei o que essa gente pensa que sabe se, ao fazer um curso de Letras, não se preocuparam em ler, no mínimo uma página de ficção ou dois ou três versos de um poema, ou um parágrafo de um texto de crítica/história/teoria da literatura… E ainda assim, ao final, gastam tempo, energia, dinheiro e a paciência alheia para comemorar a conclusão do curso e o famigerado diploma… Durma-se com um barulho desses…

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