Saco cheio

1986 foi um ano emblemático. Foi o ano em que completei três décadas de existência. Foi o ano em que entrei para o Mestrado em Teoria da Literatura na Universidade de Brasília. Fui aprovado em primeiro lugar e, por isso mesmo, fui alçado ao lugar de representante discente junto ao Colegiado do Curso. Conheci por dentro, o funcionamento da pós-graduação e suas relações institucionais. Nesse contexto é que, numa tarde, durante uma aula, começamos um papo que varou a tarde e quase a noite, não fosse a secretária da graduação bater à porta. A disciplina era desenvolvida por dona Algaêda Facó Ventura. Uma mulher interessantíssima, de vasta cultura, de senso de humor inigualável.  Disciplina se chamava Estética literária – creio que muito pouca gente vai saber do que se trata. Líamos os poemas, contos, romances (ou trechos deles), críticas, resenhas, dissertações/teses, artigos antes das aulas. As discussões se davam a partir destas leituras, por óbvio. Infelizmente, hoje não é assim. Já faz um tempo que não é assim. Mas não é isto o que me interessa. Na verdade, o que me interessa tem a ver com aquela tarde perdida no tempo. Dona Aglaêda comentava sore sua alegria em ter comprado os dois volumes da edição da Pléiade (francesa) de À la recherche du temps perdu, do Marcel Proust. O comentário dela deve soar deslocado, sem sentido, inócuo. E não é nada disso, absolutamente nada. Seguindo ao comentário, dona Aglaêda vai falando isso e aquilo e pergunta: e se o que está acontecendo aqui, agora, não é real; é apenas uma memória de outra dimensão na qual vivemos esta situação e que volta agora. O papo correu solto sobre as possibilidades de esta afirmação ter veracidade e poder ser levada a sério. Falamos muito. Muito mesmo. Foi uma das aulas mais instigantes e proveitosas pois, apesar da aparente desarticulação entre o tema proposto – a biblioteca, a partir da leitura de um texto de Jorge Luiz Bordes: “A biblioteca de Babel” – e a conversa que levou horas de puro deleite intelectual e aprendizado inegável, a professora fazia suas ilações a partir da leitura do texto do escritor argentino. Como nós tínhamos, de fato, lido o texto com antecedência – prática que, àquela altura era absoluta e cristalinamente natural, automática, o que, de novo, parece não mais ocorrer no espaço dito acadêmico – a aula cumpriu sua missão, a professora atingiu seus objetivos e nós ganhamos algo que “teoria” nenhuma pode explicar, que dinheiro nenhum pode comprar. Esta recordação, me leva a pensar numa de minhas constatações, um tanto absurdas, confesso, mas minhas. Houve um tempo em que as pessoas trocavam seu conhecimento, sua prática, sua experiência e sua expertise pelos similares alheios, dada sua ignorância em alguns setores das relações sociais. Explico-me. Houve um tempo em que o plantador de batatas levava suas batatas ao mercado e as trocava por óleo para as lamparinas de sua casa e/ou por peças de vestuário que ele, obviamente não sabia produzir. E vice-versa.  Aquele/a que sabia costurar levava suas peças para trocar por pedaços de carne ou pão, dado que não caçava e não sabia fazer pão. Os exemplos possíveis apontam para o infinito, mas a constatação é uma só, na medida das condições contemporâneas a esta “cultura” havia equilíbrio e satisfação. Não sou ingênuo ao ponto de não admitir falcatruas, diferenças, invejas e todos os ales que qualquer relação social pressupõe, pelo menos, a partida dos parâmetros já “fixados” como senso suficientemente capazes de explicar as mudanças posteriores. Foro íntimo, coloco em dúvida a afirmação – cega e inquestionável, às vezes – de que o mundo evoluiu, que a sociedade evoluiu depois disso. Será? O que leva à constatação de tal ideia é apenas e somente o resultado da especulação que se desenvolve a partir de registros de “fatos” e referências devidamente abalizadas acerca do passado da humanidade. Tudo isso é, em síntese, resultado de elaboração humana, intelectual. Assim não fosse, ninguém poderia colocar em questão o resultado de pesquisas historiográficas, em qualquer de suas vertentes. E todo mundo abe que a História, per se, não é, não pode ser, a expressão de uma verdade absoluta, mas a leitura feita a partir de dados que atravessam o tempo e, nesse ciclo, vão ganhando foro e consistência de “verdade”. Ainda assim, a elaboração humana é imprescindível, irrecorrível, inquestionável. Logo, minha ideia não peca por falta de sentido. Isso me faz pensar na absoluta relatividade de TUDO. Ainda que possa ser usado o argumento da incoerência e de certa contradição em termos… Isso posto, fica a minha dúvida: quem pode me obrigar a defender isso ou aquilo, a subscrever esta ou aquela ideia, sob pena de ser rechaçado se meu posicionamento é a favor ou contra isto ou aquilo, dependendo do ângulo a partir do qual se observa a questão. Eu dou a mim mesmo o direito de exercer outro inalienável direito: o de não ter que tomar posição, o de acreditar na absoluta falência de qualquer processo de seleção afirmativa, a absoluta certeza de que a natureza humana, sobretudo em seus instintos mais baixo e mais sórdidos em perímetros geopoliticoculturais, não tem conserto. E ainda assim…

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