Imagem

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De noite (ou no escuro!), todos os gatos são pardos…

De perto ninguém é igual…

Quem vê cara não vê coração…

As aparências enganam…

Por fora bela viola, por dentro pão bolorento…

O adagiário popular está repleto de expressões similares. Todas elas falam de aparência, de imagem. O verbete no dicionário, não deixa dúvidas, quanto a tratar-se de substantivo feminino, mas…:

– representação, reprodução ou imitação da forma de uma pessoa ou de um objeto; representação de seres que são objeto de culto, de veneração;

estampa, sem caráter de obra original ou rara, que reproduz temas diversos ou, mais esp., motivos religiosos;

– aspecto particular pelo qual um ser ou um objeto é percebido; cena, quadro;

 – reprodução invertida de um ser ou de um objeto, transmitida por uma superfície refletora;

 – reprodução estática ou dinâmica de seres, objetos, cenas etc. obtida por meios técnicos;

 – derivação: sentido figurado: pessoa muito bonita; cromo; aquilo que apresenta uma relação de analogia, de semelhança (simbólica ou real); réplica, retrato, reflexo; pessoa que representa, simboliza ou faz lembrar alguma coisa abstrata; personificação; opinião (contra ou a favor) que o público pode ter de uma instituição ou personalidade;

 – na rubrica: literatura: qualquer maneira particular de expressão literária que tem por efeito substituir a representação precisa de um fato, situação etc. por uma alegoria, visão, evocação etc.;

 – na rubrica: matemática: elemento determinado pela aplicação de uma função em um determinado ponto;

 – na rubrica: óptica: representação de um objeto que emite ou recebe luz e que é formada por raios luminosos que passam por uma lente, espelho ou qualquer outro sistema óptico;

 – na rubrica: psicologia: representação ou reprodução mental de uma percepção ou sensação anteriormente experimentada;

 – na rubrica: psicologia: representação mental de um ser imaginário, um princípio ou uma abstração.

autor

Não é bolinho! No fundo (ou, como dizem os portugueses, “ao fim e ao cabo”) o ponto de fuga é a ideia de imagem. Pela multifacetada gama de nuances semânticas do termo, imagine-se (ops!) a igualmente multifacetada e inumerável gama de variações de sentido que se pode atribuir a seres, acontecimentos, fatos, ideias, etc., em associação com tal substantivo. Para além disso, note-se que se trata de substantivo de gênero feminino, o que levaria a pensar numa outra plausível gama de mais complexa e intrincada composição semântica: a ideia de sedução. Deixo de lado, por ora, tal variação. Parto da ideia de imagem para comentar, ainda que brevemente, um livro que estou terminar de ler. Academicamente falando, deveria terminar a leitura antes de ousar dizer alguma coisa sobre ele, o livro. Não estou na “academia” aqui… O livro se chama “Conquistadores: como Portugal criou o primeiro império global”. Seu ator, Roger Crowley – autor e pesquisador de origem maltesa, estudou Literatura Inglesa em Cambridge e viveu por algum tempo na Grécia e em Istambul, escreveu vários livros populares sobre guerra naval e conquistas de potências europeias nos tempos modernos. Desde 2005, vive em Gloucestershire -, faz uma leitura inesperada, instigante, detalhada e criativa da História das conquistas Portuguesas, sobretudo a já cantada em versos camonianos. O estabelecimento do caminho marítimo para as Índias, feito fenomenal dos lusitanos, é também objeto do escrutínio do autor que, na contramão da História oficial – consideradas aqui as versões documental e literária -, relê uma sequência de episódios, enfatizando a crueldade e a sanha conquistadora dos portugueses neste périplo que definiu os rumos de uma Europa em franco caminho para a Modernidade. Lê-se o livro como se lê um romance bem escrito, muito bem escrito. A intimidade com que trata as personagens – aqui, em seu duplo sentido – é de uma delícia anos-luz distante de qualquer palavra que se possa desejar usar. Não há como descrever. A facilidade com que conduz o leitor pelos meandros do poder naval em pleno séculos XV, XVI e XVII – como eu disse, o rigor acadêmico em sua ausência, aqui, me dá asas… e a imaginação pode voar livre e desimpedida! – faz com que certas “verdades” sejam definitivamente alocadas na categoria de imponderavelmente relativas e discutíveis. Aliás, o propósito do livro pode ser também compreendido como um exercício de afirmação deste axioma. De um jeito ou de outro, para o bem e para o mal, a “IMAGEM” dos portugueses não permanece inalterada depois da leitura do livro. Não ouso afirmar que ela fica manchada. Também não aposto na solene grandiloquência da possibilidade de cristalização de outra imagem: a de heróis. Tudo é absolutamente relativo, como bem demonstra o texto de Crowley. Cada passo, da História, aparece acompanhado, na história, por fatos que podem ou não ser ficcionais – ou inventados se assim o quiser o leitor -, inesperados e reveladores de maldade, da crueldade, do sadismo: tais peculiaridades não são assim tão correntes nas infinitas leituras que até hoje se produziram sobre este passo da História mundial. Unindo o termo “conquistadores” e a expressão “império global”, o intencional sarcasmo hermenêutico a que se entrega o pesquisador de língua inglesa não deixa dúvida sobre o seu ímpeto: contar “outra” história. E nisto não vai nenhuma intenção de desmerecer a História. Longe disso, muito longe. É preciso ter inteligência muito rasa para tomar literalmente as palavras do autor, como bastião de uma derrubada do caráter oficial que nos foi legado, depois de cantado em verso pelo poeta português. O fato permanece: na memória, nos documentos, nos textos que sobre eles se debruçam e a partir dele se escrevem e se escreveram. Eles permanecem como a camada de cera no “bloco mágico”, para lembrar Freud. O livro é extraordinariamente bem escrito, bem fundamentado e delicioso aos olhos de quem sobre ele desliza a atenção das retinas, mesmo que cansadas. Vale a pena!

livro

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5 comentários sobre “Imagem

  1. Imagino que uma imagem consolidada deve estar, mesmo que o autor não tenha tido essa intenção, como você disse, desesperada por ter que lidar com essa mundivisão “nova”.
    Foureaux, nos emails e aqui, você fala do meio acadêmico de um jeito que me dá medo.

    1. Wendel, desculpe pelo medo causado. Juro que é involuntário. Faz alguns anos que venho me desiludindo muito e, em boa parte das vezes, não consigo me controlar! , como de resto nenhuma imagem é… É só isso, imagem. No fundo, é esta a ideia da postagem de hoje. Fiquei feliz com sua visita. Obrigado! Desculpe. Minha intenção não é desestimular ninguém. Mas a imagem que se faz de Portugal, de fato não é única, como de resto nenhuma imagem o é! Volte sempre e, se for o caso, comente. Isso dá sentido às coisas que escrevo aqui, ainda que eu não seja assim tão regular… Abraço!

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