Memórias

TRÊS CARTAS DA MEMÓRIA DAS ÍNDIAS


CARTA DA ÁRVORE TRISTE 
(a minha mulher) 


lápide 

a contínua escuridão torna se claridade
iridescência lume 
que incendeia o coração daquele cujo ofício 
é escrever e olhar o mundo a partir da treva 
humildemente 
foi este o trabalho que te predestinaram 
viver e morrer 
nesse simulacro de inferno 

meu deus! 
tinha de escolher a melhor maneira de arder 
até que de mim nada restasse senão um osso 
e meia dúzia de sílabas sujas 
calcinadas 


A árvore que se dá nas Índias Orientais, e lá chamam triste, é assim chamada porque não floresce senão de noite. Quando o sol se põe não se vêem nela flores algumas; e todavia meia hora depois do sol posto, esta árvore fica toda florida, e apenas o sol lança novamente os seus raios, caem lhe as flores, sem lhe ficar alguma. É do tamanho da pereira. A folha assemelha se à do loureiro quando é um pouco cortada. A semente serve para lançar na comida; e a água que se espreme destas flores serve para remédio contra a moléstia dos olhos.

Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

quando te levantares e abrires as janelas 
a luz espalhar se á por toda a casa
cobrirá suavemente os objectos e o mobiliário 
devolvendo lhes os seus pesos formas e volumes
acordá los á para as quotidianas utilizações
e as petúnias em plástico na jarra da sala agitar se ão
à tua passagem em direcção à cozinha 
a cidade entrará repentinamente pela casa adentro 
um grito nas traseiras sacode te para o interior baço da manhã
buzinas sirenes 
o telefone do vizinho atravessando as paredes 
gritos de crianças derrapagens estridentes 
outro telefone 
uma porta que se fecha com estrondo 
passas o olhar pelo jornal de ontem em cima da mesa 
lês: 

um papagaio valioso com 32 anos 
capaz de falar em 3 idiomas 
foi morto por um jovem drácula de nome punk 
Carlinhos Monóxido 
o papagaio foi encontrado morto e de olhos saídos das órbitas 
suspeita se que…


o telefone parou de tocar 
atiras o jornal para o caixote do lixo 
reparas então que tudo o que permanecera na penumbra do sono 
surge subitamente nítido e coberto de luz 
como se tivesses encontrado uma fotografia esquecida 
no fundo dalguma gaveta forrada a papel manteiga
o dia instalar se á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos 
ouves rádio enquanto o café aquece 
deixas queimar um pouco as torradas 
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita 
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado 


depois
com a chávena de café na mão mexendo o açúcar 
arrastando os chinelos de borracha virás até aqui 
onde encontrarás esta carta 

serão talvez nove horas 
a rádio cospe anúncios de sabonetes e detergentes 
o irritante pi do sinal horário 
suspiras ao pegar no envelope 
e apenas o teu suspiro te parecerá deslocado 
de resto há muito que os teus dias são o decalque uns dos outros 

escrevo te enquanto não amanhece
a morte desperta em mim uma planta carnívora 
o mundo parece despedaçar se pelos desertos do meu delírio
pântano de lodo entre a pele da noite e a manhã 
espaço de penumbras e de incertezas 
onde podemos perder tudo e nada desejarmos ainda 
por isso aproveito o pouco tempo que me sobeja da noite 
este vácuo lento este visco dos espelhos 
espessa escuridão agarrada à memória debaixo da pele 
começa a asfixia o perigo de ter amado 
no mais profundo segredo das noites devorávamo nos
e um barco tremeluzia pelas cortina do quarto 
como um presságio 
nos objectos e a roupa atirada para cima das cadeiras 
revelavam me a pouco e pouco a desolação em que tenho vivido

é me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue 
a noite cola se me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta 
onde gostaria de deixar explicadas tantas coisas 
não consigo 
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem 
eu sei 
comemos a lucidez do asfalto 
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar 
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade 
mas nada disto chegou para nos entendermos 
o tempo transformou se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas 
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever te
sob o peso da luz do dia 
a excessiva claridade amputar me ia todo o desejo
cegar me ia
tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite 
sou frágil planta nocturna e triste 
o sol ter me ia sido fatal
conduzir me ia ao entorpecimento da memória
e eu quero lembrar me do teu rosto enquanto puder
o pior é que me falta tempo 
sinto a manhã cada segundo mais próxima 
ameaçadora e cruel 
a luz arrastar me á para uma espécie de inércia inexplicável
o silêncio será definitivo 
o sangue adormece nas veias e o desejo de permanecer 
arremessar me ia para o esquecimento sem regresso
poderia até projectar um eventual regresso antes de partir 
tenho a certeza de que parto para sempre 
não haverá regresso nenhum 
creio que se tornaria mais fácil escrever te de longe
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre 
num país com sabor a tamarindos rodeados de mar 
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar 
a paixão nascesse durante o sono 
um país um pouco maior que este quarto 
fingiria escrever te para te enviar a minha nova morada
poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias 
inventaria mesmo desculpas plausíveis 
greves dos correios inexistentes terríveis epidemias 
catástrofes 
e na espera duma carta acabaria por me embebedar 
beber muito e esperar 
esperar 


digo tudo isto mas já não te amo 
não te amo 
olho em redor pela última vez demoradamente 
sinto me como uma ilha cuja base se desprendeu do fundo do mar
naufraga algures com todo o seu peso diáfano de praias 
uma sensação de limos frios desce às mãos 
nunca fizeste caso da minha loucura 
nunca vieste visitar me quando estive internado nunca


o enfermeiro azul sabonete chegava às cinco em ponto
injectava me e sorria
atava me debaixo de fortíssimas lâmpadas e sorria
esperei continuamente a tua visita 
nunca vieste 
ficava estendido inerte a gritar para dentro do corpo 
as unhas abrindo sulcos nos lençóis sujos de mijo 
e sabia que lá fora as avenidas esvaziavam se
enquanto a morte se passeava no rosto despreocupado duma mulher 
a carne rasgava se me ao simples contacto com os dedos
a dor invadia me os órgãos do corpo que eu nunca vi
esperava te
por cima da cama voava um corpo translúcido filiforme 
passava rente ao peito agredia me
quando eu tentava gritar afastava me embatia
contra as paredes fazia frio e tu não vinhas 
era inverno dentro e fora de mim 
já não me lembrava de nenhum número de telefone 
nenhum nome amigo 
as pernas e as mãos eram de geleia fendiam se
ao contacto de línguas de vidro invisível 
nem sequer telefonaste 
tentava caminhar e tudo o que conseguia era bater 
com a cabeça no lavatório tentava lembrar me do meu nome
e só um rápido movimento de barbatanas sujas me aflorou a boca 
esperei que viesses ao entardecer 
abrisses os braços para mim 
esperava que surgisses como um osso de luz reconhecível 
mesmo durante a noite esperei 
que me prendesses de novo para que não se enchesse o quarto 
de peixes de enxofre devoradores de paredes 
e tu nunca vieste 
mais nada me poderia acontecer 
teu rosto chegava me à memória como mancha de fumo
longínqua nódoa de água e sangue 
nos pulsos 
uma mancha e tu não chegaste 


desculpa 
o que te queria dizer talvez não fosse isto 
a solidão turva se me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio 
olho as fotografias de antigos desertos 
corpos coerentes que fomos 
bocas de papel amarelecido 
onde a sede nunca encontrou a sua água 
e às vezes ainda tenho sede de ti 
mas na vertigem da viagem o coração galopa desordenadamente 
no écran da memória acende se a imagem da mulher que amei
quase nítida vejo te sentada
à porta da rua bordando um pano de linho branco 
só esta imagem transportarei comigo 
embora nunca tenha conseguido saber o que bordavas 
uma colcha? uma toalha? um sudário? 
também nunca to perguntei 
tinha tempo de sobra para o descobrir 
vivíamos longe da cidade espreitavas a nesga de mar 
como uma risca de azul cerúleo ao fim da rua 

agora tens as traseiras enlameadas dos prédios para olhar o lixo 
cães magros ganindo fogem 
às vassouradas de porteiras húmidas de gordura e rolos na cabeça 
tens carros estacionados 
e todas as merdas que atiram fora pelas janelas 
furtivamente durante a noite ou de madrugada 
de tempos a tempos o som quase limpo da flauta do amola tesouras
pergunto me se a memória não será um espaço arquitectado
para abrigar os mais terríveis remorsos e o futuro 

a noite corrói 
balbucio algarismos nomeio peixes e flores de todos os mares 
de todos os continentes os ventos os naufrágios por vir 
o estrume humano a seiva viva das plantas os astros 
uma a uma as aves 
as cidades onde me perco e me reencontro 
a esperança e a dúvida 
o medo das antárcticas cidades do sonho 
ah como me recordo ainda de ti! 


a noite é uma teia de sirenes que te acordam 
e me esfrangalham os nervos 
derrapas na insónia engoles comprimidos coloridos 
para escapares ilesa à inquietante desolação do sexo 
amávamo nos
e para que não nos devorasse o silêncio 
tartamudeava nomes de barcos: 

Delfim dos Trópicos Lírio dos Mares Ave do Tirreno 
Virgem das Maresias Furacão de Delfos Limo de Zanzibar 
Quilha das Índias 

não 
não estou a enlouquecer 
amávamo nos mesmo quando bordavas e te ferias coma agulha
o sangue alastrava pelo pano 
apressadamente bordavas algumas flores para o esconderes 
compreendo hoje como era doloroso o nosso amor 
onde terás esquecido o pano bordado? 
tudo se perdeu 
e na confusão do pouco tempo que me resta duvido 
que nos tenhamos amado alguma vez 

os dias tornaram se vertiginosos quando mudámos para a cidade
assim que andavas de metro punhas te a delirar com viagens
contavas me aventuras de transiberiano
afinal sou eu que parto 
e não irei do Campo Pequeno aos Anjos 
por onde andará a paragem do meu transiberiano? 
quem sabe se numa praia em que leões cansados de selva 
vêm espreguiçar se no crepúsculo do areal
quem sabe se o sonho ou a morte me conduzirá a algum porto 
onde possa embarcar para não sei que outro porto 

víamo nos cada vez menos até que nos perdemos definitivamente
foi quando me assolaram as primeira visões 
as nossas noites eram sempre mais longínquas uma da outra 
a tua vida encheu se afazeres mesquinhos
televisão cabeleireiros tricots intermináveis 
conversas idiotas ao telefone concursos de rádio 
furtivas saídas ao cinema do bairro e à leitaria da esquina 
como se eu ligasse alguma coisa ao que fazias 
eu já andava atravessando as noites 
onde uma navalha oculta talhava um sexo branco no vento 
abria nas pedras fulvas da praia um lugar para esconder 
o corpo exausto 
a febre esmagava me
recolhia aos quartos de pensão 
com as mãos e o peito cheios de pássaros de haxixe e de vinho 
tinha medo 
medo que certos hálitos fortes me fizessem estremecer 
apesar de tudo avançava fascinado 
trémulo noite dentro avançava sempre para me afastar 
de ti e de mim o mais que pudesse 

experimentei breves paixões tristes carícias 
cantei com as lágrimas molhando as palavras sussurradas 
no escuro do quarto cantava 
a cidade de olhos entumecidos a fome entorpecia os gestos 
atirando o corpo para o mais terrível abandono 
internaram me e tu nunca vieste visitar me
não tenho vontade de voltar a falar sobre isto 
vou partir sem saudades e sem dinheiro 
vou partir sem levar um só objecto que me lembre teu corpo 
levo apenas uma espécie de fogo no fundo de mim 
uma ânsia que não sei explicar 
lembro me de quando enlaçava os braços em tuas pernas
uma nuvem de aves vinha pousar se nos ossos
tua boca deixava na minha um travo de asas estelares 
o sexo húmido perfumado 
não não julgues que estou de novo a enlouquecer 
para lá de meus olhos fechados com força o mundo acorda 
cheio de ecos e de venenos 
moves te nesse mundo que eu recuso
aqui donde te escrevo apenas uma parte de mim ainda não partiu 
era isto que te queria dizer 
poderás começar a preparar a espera 
pouco me importa que continues a polir móveis 
e a mudares a água das jarras 
ou a encerares o soalho dos corredores 
podes varrer os quartos 
varrer a cozinha vagarosamente 
eu nunca mais entrarei em casa com os sapatos enlameados 


e tu gritando coisas que eu já não podia compreender 
encontrarás provavelmente um ou uma amante que te ajude 
a suportar o vazio e o tédio desta casa 
e um dia acabarás por trocar novamente esse amor 
pela limpeza maníaca dos móveis 
pela máquina de lavar e o seu funcionamento 
os electrodomésticos sempre foram mais importantes que eu 
mas não terás que te preocupar mais com as minhas pedradas 
nem com as bebedeiras nem com a música em altos berros 
talvez consigas arranjar boas razões 
para de quando em quando insultares o frigorífico 
ou então mete o de caras na cama
poderás partir um prato do serviço com violência 
ou atirares com os cinzeiros cheios à parede 
estou me nas tintas sempre me estive borrifando
para as tuas fúrias electrodomésticas 
e agora sozinha nada disto terá sentido 
resta te o tricot o infindável tricot da chatice e do silêncio
os dias quase sem ninguém 
arrastar se ão contigo colada às vidraças olhando
olhando a chuva ensopar os papéis que se estampam 
contra o asfalto imundo do estacionamento das traseiras 
e o vento arrastará na primavera o cio dos animais fechados nos quintais 


então lembrar te ás de mim
os dias incendiar se ão no susto da interminável espera
mas hoje ao acordares 
sentirás que te povoo ainda o corpo e a memória 

não te deixo o número de telefone de meu amigo 
não quero que com ele alguma vez venhas a falar 
e tentes saber onde estou 
vou partir sem rumo 
por isso será inútil perguntar em que direcção fui 
por outro lado penso que o meu amigo 
não estaria disposto a dividir segredos contigo 
achas que deveria explicar esta amizade? 
não posso não tenho coragem 
ou talvez seja unicamente por pudor 

a manhã começou a furar a noite 
chega me pelas frinchas das persianas
cheira a cimento molhado e a bolor 


parto dentro de breves instantes 
apenas levo a roupa que trago vestida e algum dinheiro 
muito pouco 
daquele que normalmente se destina às despesas da casa 
espero que encontres neste acto um pretexto para me odiares 
não levo recordações 
a não ser daquelas que por mero acaso mencionei nesta carta 
quase nada 
poderás deitar fora a minha roupa 
e todos os meus objectos pessoais 
para onde vou não preciso deles 
as fotografias queimei as ontem à noite enquanto saíste
se telefonarem do emprego diz 
que fui ver se ainda existem Índias por descobrir 
ou que morri ou que me transformei 
diz o que te der mais jeito 
pensei deixar te duas cartas para meteres no correio
mas no último instante eu mesmo as ponho no marco da esquina 

quando te levantares e abrires as janelas 
a luz espalhar se á por toda a casa
sem mim a casa amanhecerá doutra maneira 
a ausência que já sou estando ainda aqui e a culpa 
impregnar se ão em tudo quanto existiu entre nós
tornar se á insuportável continuares a viver sozinha
eu estarei longe 
nas costas dalguma Etiópia 
onde quantidades de lumes se avistam 
longe 
no cimo lúcido de meu próprio corpo contemplando 
o fulgurante sangue dos astros 
muito longe 
no segredo desse lugar único 
em que a escuridão da noite parece eterna claridade

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