Cartas da memória das Índias – final

Com o devido pedido de desculpas a quem me lê (imagino que sejam pouquíssimas pessoas…), segue a terceira e última parte do poema de Al Berto. Não à toa, a mais longa e para o meu gosto, a mais instigante e igualmente bonita.


CARTA DA FLOR DO SOL 
(a meu amigo) 

Há ainda outra árvore de natureza mui singular, chamada irudemaus, que em sua língua significa flor do sol, porque as suas flores não abrem nem aparecem nunca senão ao nascer do sol, e caem quando ele se pões; o que é o contrário da árvore triste. É a mais excelente flor, lança melhor cheiro que todas as outras; e da qual fazem ordinariamente uso o rei e as rainhas. 

Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

vou partir 
como se fosses tu que me abandonasses

o último sonho que tive era estranho 
via o fundo límpido de uma rua estreita 
que desembocava num largo iluminado 
havia leões empalhados nos passeios em areia solta 
já não me lembro bem 
parece que uma mulher avançava com um envelope na mão 
estendia mo e gritava
mas eu não conseguia perceber 
insultava me muito provavelmente
tinha a cara escondida por um pano branco bordado 
apenas via a sua enorme boca abrir se
e furiosamente engolir a púrpura do ar 
que envolvia as cabeças reclinadas dos leões 
ouvia o buzinar nervoso dos carros 
exactamente como se ouvem agora 
mas não conseguia vê los
depois 
um rapaz pareceu a uma esquina e reconhecia te
uma voz gravada na memória acompanhava nos
quando nos dirigimos um para o outro 
em câmara lenta 
ouvíamo la sussurrar:
procuro te
no interior das penumbras no esquecido sal 
das casas abandonadas à beira mar
procuro te no perfume excessivo do mel
armazenado pelas abelhas no entardecer das pálpebras 
vem 
mergulha as mãos nos troncos das árvores 
suspende a noite da longa viagem 
estás a naufragar 
o espelho quebrou se e tu já não reconheces as paisagens
o corpo estilhaçou se


tua presença só é visível nas fotografias dos barcos 
as quilhas são a tua memória longínqua das Índias 
vai 
com os pássaros de bicos exuberantes e sonha 
e estende o corpo cansado nos intervalos da erva fresca 
onde alguém costurou pedras brancas na orla das grandes rotas 
a cidade espera te com o cais de madeira
junto ao rio abre as mãos toca nos corpos com os lábios 
agarra os dentro de ti
até que da terra lodosa brotem especiarias 
porque só longe daqui acharás o que falta da tua identidade 
só longe daqui conhecerás o sangue e talvez a felicidade 
inundando um breve instante a noite de nossos desastres 
só longe daqui 
terás a consciência da quotidiana morte de Deus 

repentinamente a voz cessou de se ouvir 
eu tinha na palma da mão uma quantidade de comprimidos mortais 
depois a voz fez se ouvir a espaços irregulares:

pobres unhas 
pelas amarras húmidas dos lençóis rotos 
barcos 
velas sem sol papel pintado deslocando se das paredes
silêncio espesso sarro da noite 
uma viatura boceja no asfalto 
o corpo treme cintila 
resíduos de cidade ruínas da pele buenas noches 
buenas noches mi amor 
lençóis floridos ranho cabeças de cafres 
pingue pingue de torneira avariada esferas de flipper
noches buenas noches 
barcos despedaçados bolor da memória 
da memória da memória da memória 

tinhas a cara mascarada com sangue quando a voz silenciou 
a mulher ria 
eu corria para ti sem conseguir alcançar te
sentei me na cama
veio me do fundo da idade o momento em que nos conhecemos
resolvi levantar me a meio da noite e escrever te esta carta


lembro me que tínhamos fome havia três dias
encostado ao mármore da mesa de cabeceira dormia a fotografia
e o maço de português suave filtro 
a escuridão não era só exterior 
conhecíamo-nos pelo tacto e pelo olfacto
tornámo-nos murmurantes
e tu refulges ainda no escuro dos quartos que conhecemos 
cruzámos olhares cúmplices 
falámos muito não me recordo de quê 
e no calor dos corpos crescia o desejo 
caminhámos pela cidade 
eu metia a mão nas algibeiras 
onde tacteava tudo o que guardara e possuía 
um lenço uma caixa de fósforos um bloco de notas 
sentia me feliz por quase nada possuir
a imagem azulada de tuas mãos flutuava diante de mim 
gesticulavas para me dizer que estávamos vivos 
e apaixonados 

escrevo te
pelo corpo sinto um arrepio uma vertigem 
que me enche o coração de ausência pavor e saudade 
teu rosto é semelhante à noite 
a espantosa noite de teu rosto! 
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número 
queria apenas ouvir tua voz 
contar te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer te porque parto
por que amo 
ouvir te perguntar

quem fala? 


e faltar me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa 
a noite tornou se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua 
procurar te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra 
só para te dizer boa noite ou talvez tocar te
e morrer 
como quando me tocaste a testa e eu não pude reconhecer te


apesar de tudo senti a mão sabia que era a tua mão 
mas não podia reconhecer te
sim 
correr a cidade procurar te mesmo que me afastasses
mesmo que nem me olhasses 
mesmo que dissesses coisas que me 
mesmo que 
e ter a certeza de que serias tu depois a procurar me

correr a cidade com o corpo sedento 
noite esgravatando a pele 
bebendo nas veias as poucas forças que me restam 
uma lâmina pelos sonâmbulos asfaltos 
onde morrem ambíguos nomes de corpos sem sexo 
o veneno agindo dos pés à cabeça 
as mãos encharcadas de chuva tacteando um sexo qualquer 
o sangue a chuva a memória desses dias tão difíceis 
a noite a lambuzar com violência os rostos magoados 
visões de sonhos ainda não sonhados 
dilaceradas imagens de bocas coroadas por flores de aço afiado 
ouço outra vez uma voz e agora não estou a sonhar 
mas a escrever te
e ouço a em mim como se estivesse gravada
e a fita do gravador desgasta pelo uso: 

a tua vida 
será feita de embarcações e de solidão 
beberás a secura dos cabos distantes 
conhecerás ilhas de saliva profunda 
olhar te ás nas fotografias
que as unhas aceradas do tempo arranharam 
e para lá dessas imagens envelhecidas tudo sangra e dói 
a tua infância a tua adolescência e o medo 
de não conseguires sobreviver ao estrume deste país 

avançarás pelo mar dentro 
ferido por outros naufrágios imperceptíveis 
descansarás 
nas areias aveludadas da foz dalgum rio sagrado 
e quando o mar se retirar 
o sol a lua virão tatuar sobre o ombro 
a silhueta viva dum bicho estelar 
e a memória 
essa parte calcinada da vida começará a doer e a latejar 

navegarás pela cidade que adere aos dedos 
como sarna mais antiga navegarás 
com o escorbuto no coração transportarás o silêncio 
e a escrita na fragilidade dos pulsos acorda 
onde cintila a faca acorda 
acorda o mar 
está próximo o mar acorda 
o mar acorda o mar acorda o mar 
o mar 

na gaveta onde o bolor cobriu a roupa guardo as fotografias 
reparo como amareleceram suavemente os rostos 
as mãos que seguram ramos de flores os cabelos os olhos 
exala se deles uma leve doçura cor de sépia
foram perdendo a definição esfumaram se os contornos
numa das fotografias tens vestida a camisa de riscas azuis 
noutras sorris olhas me nos olhos
mas aquele sorriso não é o que ainda ontem te vi esboçar 
o sorriso que tens na fotografia morreu 
e no entanto está ali e fico perturbado quando o vejo 
eu sei que nada está vivo na fotografia ou se repetirá 
aqueles sorrisos aqueles instantes para sempre perdidos 
a camisa às riscas votada à degradação lenta do papel 
acabei por destruir as fotografias queimei as
para que ninguém possa supor através delas 
histórias a nosso respeito 
e também para que minha mulher as não encontre 

a única coisa que levo comigo é a cápsula de laranjada 
atada a um cordão em couro deste ma tu um domingo
quando ainda passávamos perto do rio 
íamos ver o sol morrer nas águas 
caminhávamos sem destino pela cidade 
o crepúsculo atingia nos com misteriosos desejos
seria inútil falar das razões da minha viagem 
no fundo nada a justifica 
embora a minha vida ultimamente seja um barco sem rumo 
de vaga em vaga de ressaca em ressaca 
fui arrastando o meu próprio naufrágio 
mas ser me ia difícil falar te destas catástrofes
prefiro calar me para sempre ou enlouquecer
ou avivar a memória de certas visões aciduladas 
enquanto te escrevo esta última carta 
é também a última vez que penso em ti 
sempre habitei este país de água por engano 
estas planícies asfaltadas pelo tédio estes prédios de urina 
estas paredes vomitadas 
onde as diáfanas aves da solidão embatem e definham 
deixam cair dos bicos fios de sangue e de cuspo que te evocam 
vou migrando de corpo para corpo 
sem nunca conseguir definir o voo complexo do meu 
escrevo te ainda lúcido
no entanto ignoro se chegarei vivo ao fim da noite 
quem poderá afirmar que daqui a instantes 
não atravessarei os espelhos impossíveis da noite? 
ferindo o corpo rasgando borboletas de luz 
no écran da cidade amanhecendo em mim 
esqueço como me chamo 
e tenho a certeza de que nunca mais nos veremos 
mesmo no caso de eu permanecer aqui 
neste país de água por engano 
descobri que a morte calça o mesmo número de sapatos que eu 

sabes 
por vezes queria beijar te
sei que consentirias 
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter nos íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos 
foi melhor sabermos quanto nos queríamos 
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos 
hoje tenho pena 
parto com essa ferida 
tenho pena de não ter percorrido teu corpo 
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti 
do pescoço às mão da boca ao sexo 
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro 
acordado 
perto de ti as noites teriam sido de ouro 
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo 


ah meu amigo 
estou definitivamente só 


estou preparado para o grande isolamento da noite 
para o eterno anonimato da morte 
mas perdi o medo 
a loucura assola me
preparo a última viagem às Índias imaginadas 
disseram me que só ali se pode descansar da vida
e da morte 
perscruto a razão profunda desta viagem 
ou talvez seja já a torna viagem o que vislumbro
e não valha a pena partir porque já estou de volta 
sem o saber 
hesito em deixar te escrito mais do que um simples adeus
de qualquer maneira por muito longe que me encontre 
se pousares a tua mão sobre a minha testa senti lo ei
esse gesto aliviar me á de todas as dores
a manhã aproxima se cortante
ouço barcos largarem do cais 
preparo a lâmina 
estendo velas em agonia uma lâmina de vidro 
para fender as águas imperturbáveis do dia sem bússola 
destruo cartas papéis manuscritos outros sinais 
destruo imagens que me chamam e me querem reter aqui 
releio estas poucas palavras para ti: 

child of the moon 
debaixo das cerejeiras uma serpente antiga adormeceu 
em tuas mãos de pétalas lunares 
movem se astros em cima da alba da pele
olharemos os insectos perfurarem a treva da noite 
e tecerem claridades 


mas já não tínhamos mais noite a desvendar 
lembro me
a cidade está cada vez mais rente à nossa separação 
caminhamos em direcções opostas 
ou melhor 
eu caminho enquanto tu não existes 
a noite aproxima se com seus territórios de sombra e fábula
areias penumbras oscilantes apagando resíduos de corpos 
teu corpo minúsculo arrefece dentro de mim 
quando as feras despertam nos olhos abandono me
à lama colorida dos terrenos vagos 
dói me a voz ao chegar aos lábios
os dedos penetram o metal cintilam 
conchas abertas ao sonho 
onde terei abandonado a nossa paixão? 

um cristal flutua no enxofre de remotas cidades 
compridos cabelos de jade espalham se sobre o rosto
indecifráveis vegetações 
o sonho torna se exótico quando abres os braços
surgem nas pálpebras caudalosos rios 
neles pouso a cabeça deixo a flutuar
uma mulher anda aos ziguezagues pelos corredores da casa 
vejo peças de vestuário espalhadas pelo chão 
a mulher grita 
corre à roda do quarto insulta os electrodomésticos 
abre o frigorífico 
atira com os legumes congelados ao chão espezinha os
esborracha os contra a parede chora
ri pega numa camisa de riscas e rasga a em mil tiras
recomeça a correr 
entra na casa de banho e abre todas as torneiras 
abre as janelas e ri 
e lambe as vidraças sujas 
derrama açúcar dentro do telefone 
e por cima das petúnias de plástico fluorescente urina 
mas tudo isto se passou há muito tempo noutro lugar 
noutro corpo 

viro me para o sul de nossos corpos e descubro uma ilha
percorro demoradas estradas de tabaco e o ouro envelhecido 
dos caminhos alquímicos desvendo 
os sinuosos mistérios da seda e da pimenta as grandes rotas 
do vento bebo o amargor da vida errante 
onde uma mulher dorme sossegada sobre a cama desfeita 


o telefone toca obsessivamente toca 
um corpo translúcido surge do papel em que te escrevo 
revela se me a água dos gritos repetidos
um foco de luz incide me sobre a boca fechada
procuro me na silenciosa cinza de tua memória
pela casa atravessada de ecos de fogos postos respiro 
dificilmente ouço zumbidos de flipper 
o quarto povoa se de rostos alados mecânicos olhares
pequenas garras de ar 
desfazem se em finos cordéis de terra
a mulher avança sob o peso da tempestade 
aqui esta sempre a chover 
o frasco de barbitúricos conta me o falhado suicídio
a mulher tem o teu rosto ou o meu já não sei 
a luz percorre te o corpo nu
é noite há muito tempo 
fixo um ponto invisível da parede estou sentado na cama 
escrevo te
e tenho a certeza de que ninguém será capaz 
de roubar a minha morte 
porque eu moro neste país líquido por engano 
e tenho dificuldade em imaginar o sono fora de meu corpo 
se quiseres vem dormir perto de mim vem 
sonharemos um país fabuloso junto ao coração das árvores 
vem 
antes que trema o corpo no frio sem deuses e na loucura 

quase amanhece 
lá fora as avenidas mantêm se vazias
subúrbios sonolentos no refrão dum brutal rock’nd roll 
vicious you are so vicious 
baunilha azul nos lábios orgasmo de baunilha 
tarzan de pastelaria um cigarro de chocolate come 
chocolates come sentado no cimo do ice cream toute la nuit 
fuck fuck 
fuck em diferido 
os eléctricos já passaram e as mãos já não são as minhas 
têm sede 
sede de nudez 
mas vou partir deixar te aí
como se fosses tu que me abandonasses 
viajar antes da alba partir 
para longe deste inúteis dias 
eu 
pobre de mim 
navegador da noite próxima da morte 
vou acendendo no sangue os sonhos dum povo que não sonha 
eu 
arquipélago de cinzas oceano do nada 
vou de veias inchadas e penso que talvez não valha a pena 
mas vou 


preciso encontrar o lugar certo para o nosso amor 
queres vir comigo? 
já avisto da gávea inquietantes iluminuras de rostos de afogados 
mãos antigas como rochedos peixes fantásticos 
bocas aflitas e tua boca mordendo 
o cordame avariado pelo sal 
ah meu amigo 
eis o sofrimento de meus lábios gretados pelo sarro oceânico 
eis minhas unhas doentes protegendo o sexo aberto 
às monções aos ventos adversos às vagas rumorosas 

vou abandonar te no lado claro da noite
onde o tempo é um fio de luz rasgando a espessura do corpo 
vou partir 
com estas manchas de frutos sorvados no coração 
para sempre vagamundo 
no corredor de espelhos sem tempo deixo te o sonho
onde já não arde nenhum rosto nenhum nome 
nenhuma voz de silente treva 
nenhum paixão 

abandono te para além da linha nítida da manhã
onde dizem que tudo existe se transforma e continua vivo 
longe 
muito longe desta inocente memória das Índias

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