Três desejos

Três são as partes do dia. Três, as “idades” do homem. Em três dias, o filho de Deus morreu e ressuscitou. Por três vezes, Pedro negou Cristo, como previsto, e o galo cantou outras três vezes para tanto. Três são os períodos do tempo. Três é o número mínimo para formar uma família, por tradição. Três é considerado o número do equilíbrio perfeito. Por fim, três são os pedidos concedidos pelo gênio da lâmpada, conforma a historieta que animou a fantasia de muitos daqueles que já ultrapassaram as quatro décadas de existência. Essa fábula teve versão tele cinematográfica, também na infância do mesmo grupo das quatro décadas. Era engraçado. Uma geniazinha loura, espevitada, de olhos azulíssimos e muito destrambelhada fazia de tudo para o bem-estar de seu “amo”. Ela o amava e só o queria feliz e satisfeito. No entanto, tudo o que ela fazia sempre passava por uma tramoia alheia, um percalço, uma dificuldade, um engano ou uma “armação”. Ao fim e ao cabo, o filme que passava regularmente na televisão cumpria a sua missão de difundir a ideia de um gênio mágico que realizava sonhos de quem encontrasse a “lâmpada” e a esfregasse. Há também muita piada sobre o tema. Minha preguiça me impede de fazer esforço para lembrar de alguma e aqui trazer… No entanto, esse introito serve para começar a falar de um livro que acabei de ler e que me agradou imenso. Mais um de meus comentários que visam tão somente isso: comentar, com acréscimo do convite para, quem quiser, ler. Um livro divertidíssimo e seriíssimo simultaneamente. Seu autor, um jovem professor de Literatura Portuguesa da/na Universidade do Porto, ele mesmo, português é um sujeito erudito, preparado, capaz, inteligente, talentoso e dono de um senso de humor – pelo menos, nas páginas deste livro – que não deixa o leitor abandonar suas páginas enquanto não cega ao final. Sim, já falei dele aqui. Sim, já li dele outros livros. Sim, conheci-o pessoalmente, por um rápido lapso de tempo, em Coimbra, numa tarde chuvosa e gelada da terra de Inês, posta em seu sossego para sempre… É ele, Pedro Eiras. O livro se chama Os três desejos de Octávio C.  Por isso a minha introdução sobre o número três. Calma! Eu não disse que ia ser original… mas enfim…! Uma narrativa entre hilariante e contundente sobre o desejo, não da ordem da sexualidade propriamente dita, mas do desejo, aquilo que não se tem e se quer ter, fazer, ver, pegar, etc., etc., etc. O protagonista, tem nome duplo “Octávio C.”. Sintomaticamente, diria eu, o segundo nome se esconde numa única letra “C”, a terceira do alfabeto. Oh… seria mais uma coincidência? Não se sabe muito bem quem é esse Octávio e isso, de fato, acaba por não ser o mais interessante no livro. Quem quer que seja ele, o fato que persiste é o de que ele tem que fazer três pedidos para realizar três desejos seus, instado que é por um gênio que lhe aparece em sonho – esta é uma maneira de “ler” as coisas ditas no relato narrativo. Obviamente, não vou dizer o que ele pede. Cabe ao leitor, se curioso for, buscar o livro e descobrir quais foram os três desejos do Octávio C. e o que é que acontece em função desses pedidos e da realização dos desejos dele. Posso adiantar que o protagonista aprende – e creio que cada leitor o acompanha nesta caminha pela caverna de um conhecimento inesperado – que o desejo, se expresso e, consequentemente realizado, quais quer que sejam os meios utilizados para tanto – sempre traz em si, não como consequência, mas como matéria constitutiva, as consequências. Estas, por natureza, imponderáveis. Logo, a lição aprendida leva a esta constatação: ao expressar seu desejo e querer vê-lo realizado, o sujeito não se apercebe que as consequências podem levá-lo, e aos demais participantes da raça humana, a vivenciar consequências inimagináveis, do ponto de vista do próprio desejo. Em outras palavras, por exemplo, se desejo que chova muito porque estou com muito calor, o excesso de chuva pode causar acidentes horrorosos em qualquer lugar do planeta. Não se trata de uma história sobre sinergia. O relato ficcional não se presta, neste caso, a exarar teoria de conspiração ou alarmismo apocalíptico de espécie vária. Nada disso. O texto de Pedro Eiras se debruça, com atenção e ironia (e isso é por conta da leitura que fiz do mesmo), sobre este ponto: o quão impossível é prever as consequências do pedido de realização de um desejo pessoal, próprio, íntimo e o quanto ele pode influenciar em situações, lugares, pessoas e circunstâncias absolutamente imponderáveis, imprevisíveis. Tudo isso instrumentalizado pela deliciosa prosa do jovem professor de Literatura Comparada. Tomara que vocês possam ler o livro, porque vale mesmo a pena.

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