Lembranças

Nos idos de 2006, quando eu ainda acreditava haver qualquer possibilidade de vitória sobre o empuxo das forças do mal que me arrastavam na corrente de desilusão e ceticismo, propus projeto de pesquisa, no âmbito de um programa de iniciação científica. A proposta foi aprovada. Um estudante ganhou uma bolsa e desenvolveu a pesquisa de maneira brilhante, galharda, exemplar. Alguns anos depois o texto que o estudante escreve como resultado da pesquisa foi, com minha interferência e colaboração, publicado numa revista catalã de estudos culturais. O estudante, hoje, é professor num instituto federal de educação, em Florianópolis. Não sei dizer quantas vezes o artigo foi consultado e/ou citado. Em tempos de choro e ranger de dentes sobre contingenciamento de bolsas de pesquisas, me deu vontade de publicar o “referencial teórico” do citado como um de meus humildes e consistentes sucessos. O projeto leva o seguinte título: “O ROMANCE PORTUGUÊS E A HISTÓRIA – A NARRATIVA DE EÇA DE QUEIROZ E ALMEIDA FARIA”.

Como a proposta de estudo investe na análise das relações entre Literatura e História a partir da leitura dos romances A ilustre casa de Ramires, de Eça de Queiroz e Cavaleiro andante, de Almeida Faria, nesse quarto tópico discorremos sobre os estudos que fundamentarão teoricamente a perspectiva de investigação adotada. É na convergência das teorias dos autores mencionados, na sequência, que iremos procurar s subsídios teóricos para um correto e coerente desenvolvimento da pesquisa. Será possível constatar que a revisão bibliográfica do projeto envolve dois conjuntos de estudos indispensáveis para uma investigação como a que propomos. Um primeiro conjunto corresponde às análises teórico-críticas que sondaram as linhas de força da ficção dos autores selecionados. Um segundo conjunto é composto de textos teóricos que examinam as relações entre a Literatura e a História.

No que diz respeito ao primeiro conjunto de estudos, a consideração da fortuna crítica sobre os autores leva-nos a mencionar que sua produção narrativa já foi o alvo de algumas investigações, as quais se configuram hoje como obrigatórias para investigações que se debruçam sobre a obra em questão. Uma das reflexões mais atualizadas sobre a narrativa de Almeida Faria, por exemplo, consiste na de Carlos Reis[1], que destaca como decisiva a contribuição a obra do autor de Cavaleiro andante para a sedimentação e a afirmação criativa da narrativa portuguesa da contemporaneidade. Esse contributo traz consigo fundamentais inovações temáticas, ideológicas e formais que dominarão a ficção lusitana do último quartel do século XX. Tal contribuição estabelece um diálogo com a extensa fortuna crítica da obra do escritor realista, o que, antes de mais nada, instiga-nos a uma abordagem de igual envergadura, dado que esta não se encontra com frequência. Em outras palavras, depara-se com uma certa lacuna nos estudos queirosianos, quando se trata da aproximação de sua obra com o referencial aqui adotado. Tal fato faz-se suficiente para respaldar a presente proposta de investigação comparativa.

Em conformidade com Reis, tais inovações operacionalizadas pela obra de Almeida Faria são identificadas a partir dos seguintes elementos: a tendência para rearticular, de forma paródica e provocatória, gêneros narrativos recuperados do passado ou de zonas antes entendidas como subliterárias; a enunciação de discursos de índole assumidamente intertextual, como processo de incorporação na narrativa de outros textos literários e não literários; a elaboração de engenhosas construções metadiscursivas e metaficcionais; a concepção da narrativa como um campo propício à problematização e mesmo à deslegitimação de narrativas fundadoras ou identitárias; a reescrita da história sob o crivo ficcional.[2] Na sequência da abordagem de Reis sobre a obra de Almeida Faria, cumpre destacar a reflexão de Vergílio Ferreira, que, no prefácio ao romance Rumor Branco (1962), sublinha a ficção de Almeida Faria como uma das mais significativas do romance português contemporâneo por “protagonizar uma consequente e vistosa derrogação da doxa literária e ideológica que o Neorrealismo impusera”. Nesse “ensaio-prefácio”, Vergílio Ferreira saudava a emancipação promovida pela obra de Faria como uma escrita liberta do estatuto e das imposições do Neorrealismo.[3]

Quanto a Eça de Queiroz, não se pode deixar de dizer que sua contribuição ficcional funciona como uma espécie de “base” para as elucubrações realizadas pela narrativa de Almeida Faria. Com isso não estamos querendo dizer que o romancista do século XIX oferece ao do século XX os elementos de que este se utiliza para realizar sua “leitura do mundo”.  Ao contrário, no painel que intenta construir da sociedade burguesa em Portugal, Eça de Queiroz, ainda que este não tenha sido seu objetivo precípuo – não se pode nunca negar e/ou afirmar absolutamente nada sobre este assunto – acaba por tocar em questões relevantes para a articulação do binômio Literatura e História, nos termos em que este aqui se apresenta.

Vergílio Ferreira constata, não só a ligação direta de Almeida Faria a uns anos 60 muito fecundos em termos de rupturas estéticas, mas antecipa uma renovação temática e formal que os romances do autor, reunidos sob a denominação de Tetralogia lusitana, incorporarão antes e depois daquela fronteira histórica que o ano de 1974 configura. Acerca disso, é oportuno mencionar o estudo de Cristina Robalo Oliveira, no qual a autora assevera que a Tetralogia lusitana é, em rigor, não apenas uma indagação ficcional sobre a história portuguesa recente, mas também, a sua maneira, um premente desafio a essa História.[4]

Com o romance A Paixão (1965), Almeida Faria encetou uma vasta parábola de alcance duplamente coletivo, no plano familiar e nacional, articulada com o pano de fundo da Semana Santa em decurso. Em 1965, o romancista que inicia essa parábola parecia adivinhar o momento de ressurreição que havia de vir, depois da libertação, com os Cravos de 1974. Só, assim, “assumia pleno sentido um projeto que, sem essa libertação, ficaria bloqueado”.[5] Se o segundo romance do ciclo, Cortes (1978) era o estágio intervalar que antecedia a ressurreição/revolução expressa em Lusitânia (1980), o romance Cavaleiro andante (1983) vem a ser, como aponta Clara Ferreira Alves, “esse momento de celebração da vida nova, já inclinada, contudo por uma deriva pós-revolucionária e pós-colonial”.[6] Esse romance “conclui o ciclo da família e o da História, desembocando no 25 de novembro de 1975, em que a Revolução atinge um clímax de ópera bufa”.[7]

Na ficção de Eça de Queiroz, para ratificar oque aqui vem sendo explicitado, destacam-se Os maias, importante e monumental romance que apresenta um quadro da vida lisboeta no fim de século. Tal proposta parece ter sido parte de um projeto inacabado, infelizmente. Não se trata, evidentemente, de um romance histórico. No entanto, ao fazer o que deseja, o painel pintado pelo autor realista acaba por tocar em questões relevantes da História de seu país, temperadas com a “pena da galhofa”, sem deixar de deixar abertas certas brechas interpretativas para a relação que se procura analisar aqui.

O segundo conjunto de estudos que integra esta revisão bibliográfica consiste de reflexões sobre a interlocução entre a Literatura e a História. Em função disso, não pode deixar de lado referências teóricas fundamentais como os estudos elaborados por Georges Duby, Hayden White, Paul Ricouer, Peter Burke, Walter Benjamin, Linda Hutcheon, Júlia Kristeva e Mikhail Bakhtin. Cumpre observar, com base nesses autores que, nas últimas décadas, a História de cunho positivista teve seus alicerces senão derrubados, ao menos, abalados pela irrupção da “Nouvelle Histoire”. Reconhece-se que a História, enquanto disciplina, é uma indagação sobre a verdade dos fatos humanos. No entanto, o resultado dessa atividade reflexiva é sempre parcial, comprometido com o sujeito enunciador do discurso, com o tempo do discurso, com o público ao qual o discurso se destina.[8] A ficção, por sua vez, consiste também numa busca dessa mesma verdade, desse mesmo conhecimento sobre a experiência do ser humano com o seu passado. A Literatura vale-se de uma visão mágica, criativa, imaginativa e simbólica, diametralmente oposta à pretensa visão clara, unívoca e objetiva da Ciência.

Ora, atualmente, ao tratarmos das relações entre Literatura e História, não podemos mais nos ater àquelas convicções que, além de separar, opõem Ciência e Ficção. A História Nova, a Nouvelle Histoire, mostrou que a atitude de ressurreição integral do passado é vã, pois existem lacunas, fendas e silêncios que são irrecuperáveis. Por causa disso, o discurso histórico nasce de um trabalho com fontes selecionadas em detrimento de outras. Isso implica a presença de um sujeito comprometido com sua carga ideológica pessoal e com a carga ideológica do seu tempo. Segundo Georges Duby[9], em História, tudo é discurso sobre algo que aconteceu ou que acontece, o qual é elaborado através de uma narração que, imaginariamente, no momento presente, lança-se à tentativa de resgatar e recompor o real do tempo passado. O discurso historiográfico nasce de um sonho apoiado em esteios conscientes, em marcas deixadas sobre o passado. As lacunas e silêncios são preenchidos pela matéria onírica.

O discurso historiográfico é um sonho condicionado a esteios e marcas deixadas sobre o passado. Por essa razão, toda a História é contemporânea. As lacunas e silêncios existentes são preenchidos pela fantasia e pela imaginação. De acordo com Duby, o trabalho de pesquisa e investigação do passado, levado a efeito pela historiografia atual, postula o encontro com o literário, com o ficcional. Dessa forma, o resgate e a representação das formas assumidas pela vida humana no passado opõem-se à reconstrução objetiva, pois pressupõem o lirismo, o sonho, a fantasia, a criatividade e a imaginação, caracteres essenciais do fazer ficcional. Refletindo sobre a narrativa historiográfica, Duby contempla, nessa estrutura discursiva, além da reabilitação do estilo o desejo subjacente de contar uma boa História.[10] As considerações de Duby sintomatizam o debate contemporâneo sobre a narratividade como princípio constitutivo da História e de sua conseqüente aproximação da narrativa literária. Vislumbra-se, nesse debate, não só a convicção de que a Historiografia, enquanto processo discursivo, procura não só resgatar e reconstituir o real dos tempos passados, mas, sobretudo, como menciona Paul Ricoeur, a “capacidade desdobrada” da Literatura de não só registrar e ficcionalizar os fatos históricos concernentes à vida dos povos, mas também de, na plenitude de sua potencialidade ficcional, “fazer História”.[11]

A defesa de um diálogo entre a Literatura e a História tem em Hayden White um dos seus principais expoentes atuais.[12] Ao incursionar pelo terreno da Historiografia e da Literatura Comparada, o teórico norte-americano sublinha a circunscrição do discurso histórico como uma prática eminentemente narrativa, portanto, literária. White reflete sobre a necessidade de expansão das fronteiras da História, no que concerne às suas definições e métodos de investigação e escrita, insistindo que a tendência da História tem sido a de manter-se situada no âmbito dos paradigmas literários e científicos do século XIX. A Literatura e a Ciência ultrapassaram há muito tempo essa fase. Por essa razão, White convida aquela Historiografia, atrelada às idéias do século XIX, a abrir-se aos procedimentos críticos que ocasionaram transformações no âmbito da Literatura, da Arte e da Ciência. Segundo White, em oposição aos ficcionistas, os historiadores desconsideraram o elemento imaginário de suas obras, acreditando que conseguiram transcender e se desvincular da Ficção pelo estabelecimento de rigorosas linhas de pesquisa e investigação para a História, enquanto disciplina. Entretanto, apesar desses limites, conscientes ou não, todas as descrições dos acontecimentos históricos fundamentam-se em narrativas que revelam a coerência, a integridade, a plenitude e a inteireza de uma imagem de vida que é, e só pode ser, imaginária. A reflexão de White descortina que a reflexão acerca das relações entre Literatura e História deve considerar o fato de as duas serem formas narrativas que têm como instrumento comum a linguagem.

Assim sendo, merece destaque, na sequência de posturas teóricas, a reflexão de Walter Benjamin sobre a narração, a qual vislumbra a Literatura e a História como vizinhas de longa data, por habitarem o solo comum e fértil do gênero narrativo.[13] Benjamin lança mão da narrativa literária para atribuir à História uma vocação narrativa, apostando na caminhada comum empreendida pelos dois discursos. A reflexão benjaminiana indica a disposição de redefinir o papel da narrativa no âmbito da Ficção e da História. A referência à arte de contar está a serviço, no pensamento benjaminiano, da apologia do historiador como um cronista, cujo artefato de sua arte é o relato. Benjamin preconiza, nos seus textos sobre a narração e o discurso da História, uma revitalização da dimensão inventiva, nomeadora da linguagem e o retorno a uma criatividade original que ele identifica no narrador tradicional, cuja expressão declina na Modernidade. A reflexão de Benjamim acerca da extinção da arte de narrar aponta para o desejo e a necessidade de uma nova narratividade tanto na Literatura quanto no âmbito da História.

A questão sobre as relações entre a Literatura e a História torna inevitável a reflexão sobre a intertextualidade, como princípio fundamental dessa interlocução entre os discursos da Literatura e da História. Acerca da intertextualidade, nos valemos do pensamento de Linda Hutcheon, nas reflexões de Julia Kristeva e de Mikhail Bakhtin. Com base nesses teóricos, a intertextualidade é contemplada como o princípio basilar das convergências e distanciamentos entre Literatura e História. Assim, a intertextualidade assinala que os meios de expressão e os mecanismos organizadores da narrativa ficcional são os mesmos que instrumentalizam a narrativa histórica. Por se constituírem como constructos linguísticos, História e Ficção apresentam-se como gêneros permeáveis, convencionalizados em suas formas narrativas.


[1] REIS, Carlos. História crítica da literatura portuguesa: Do neo-realismo ao Post-modernismo. Lisboa: Verbo, 2006, v.9, p.287-357. O post-modernismo e a ficção portuguesa do fim do século XX.

[2] Idem, p.296.

[3] FERREIRA, Vergílio. Prefácio. In: FARIA, Almeida. Rumor branco. Lisboa: Portugália Editora, 1962, p. 5-11.

[4] OLIVEIRA, Cristina Robalo Cordeiro. A paixão de Almeida Faria. Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980.

[5] AZEVEDO FILHO, Leodegário de. Uma visão brasileira da literatura portuguesa. Coimbra: Almedina, 1973, p.5-7. Nota prévia ao romance de Almeida Faria.  

[6] ALVES, Clara Ferreira. A propósito de Cavaleiro andante. In: JL-Jornal de Letras, Artes e Idéias. Lisboa, n.20, p.17, 7 de junho de 1983.

[7] Cf. PIWNIK, Marie-Hélène (org.) La littérature portugaise: regards sur deux fins de siècle (XIXe-XXe). Bordeaux: Maison des Pays Ibériques, 1996, p.121.

[8] BURKE, Peter. A escrita da história. São Paulo: Editora da UNESP, 1992, p.37. Ainda: ___. A Escola dos Annales 1929-1989 – A Revolução Francesa da Historiografia. 2 ed. São Paulo: Editora da UNESP, 1992.

[9] DUBY, Georges; LARDREAU, Guy. Diálogos sobre a Nova História. Lisboa: Dom Quixote, 1989, p.41.

[10] Idem, p.10.

[11] Cf. RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Campinas, SP: Papirus, 1997, v.3.

[12] Cf. WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: EDUSP, 1994. Ainda:___. Meta-História: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: EDUSP, 1995.

[13] Cf. BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas I – Magia e técnica – Arte e Política. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. Ainda: ___. Obras escolhidas II – Rua de mão única. 4 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. ___. Obras escolhidas III – Charles Baudelaire – Um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989.

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